terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O texto filosófico - Apoiar-se nos ombros dos gigantes


Em um texto bastante acessível o Prof. João Carlos consegue mostrar a 
importância da leitura dos textos dos filósofos.

O prazer do texto

João Carlos Salles
De Salvador (BA)

Anos atrás, um aluno do curso de filosofia da federal vangloriou-se por ter conseguido se formar sem ter lido um livro inteiro sequer. Ora, isso dificilmente seria possível nos dias de hoje. Em quase todo país, houve uma mudança considerável na concepção dos nossos cursos e no perfil profissional de nossos egressos.
Um índice relevante é a relação de docentes e discentes com nossas fontes primárias, os livros clássicos de filosofia. Afinal, os manuais de filosofia, por necessários ou excelentes que possam ser, nunca devem tornar-se principais e menos ainda suficientes.
Aliás, em certo sentido, a própria expressão "manual de filosofia" não deixa de comportar alguma mínima contradição em termos. Se é próprio do filosofar o caminho tortuoso por que chegamos, muita vez, a resultados aparentemente parcos ou nenhuns, o manual parece pretender atingir esses mesmos resultados, mas em linha reta. A filosofia é sempre labiríntica, e os manuais, em sua maioria, parecem preferir a paisagem dos desertos.
Na maioria dos nossos cursos, porém, os manuais têm dado lugar aos próprios textos filosóficos. E isso, em grande parte, por nosso corpo docente estar sendo formado em um novo estilo - e então não importa se a tradição a que se vincula é analítica ou hermenêutica, se prefere enfrentar temas ou se privilegia, por exemplo, uma abordagem vertical da história da filosofia.
O texto filosófico clássico (inclusive o contemporâneo) é agora uma dimensão que nos unifica, sendo o confronto preferencial com ele, em edições de qualidade, a oportunidade essencial de nossa formação.
Temos tido assim uma grande vitória. E, por sinal, ela é tamanha que a atenção ao texto pode chegar a outros extremos indesejáveis. Depois de combater tanto os que não liam sequer um livro, eventualmente temos agora até que afastar a tentação de alunos da graduação só lerem um único grande livro, com o que nossos jovens mais promissores se vêm levados a uma indesejável especialização precoce. Deixaram decerto de ser um mar de meia polegada, mas correm o risco de ficar aprisionados em um pequeno abismo.
Não pode formar adequadamente quem não estiver bem formado. Tampouco despertará vocações filosóficas quem não se encanta com o texto, quem não é capaz do prazer exato de entendê-lo e mesmo de revivê-lo por sua leitura. E tal prazer é extraordinário, mas intrínseco ao trabalho filosófico, como talvez o enuncie Wittgenstein ao apresentar seu Tractatus.
Na primeira frase do seu prefácio, queremos crer, Wittgenstein enuncia o desafio característico e quase paradoxal não apenas da sua, mas de toda grande obra filosófica: "Este livro talvez seja apenas por quem já tenha alguma vez pensado por si próprio o que nele vem expresso - ou, pelo menos, algo semelhante. - Não é, pois, um manual. - Teria alcançado seu fim se desse prazer a alguém que o lesse e entendesse".
Sem que desejemos recusar algum eco de Barthes, foi essa frase de Wittgenstein que inspirou o título do nosso Colóquio O Prazer do Texto, colóquio promovido pelo programa de pós-graduação em filosofia da UFBA e que chega agora à sua quarta edição.
A nosso ver, essa inspiração de Wittgenstein deve ser reiterada. Mais ainda, ela coincide com um esforço presente em todo país por fazer coincidir a profissionalização cada vez maior do trabalho filosófico com a vocação necessária para a filosofia. Muitos são os esforços nesse sentido, e o do nosso colóquio (que divulgamos logo abaixo) tem sido um entre eles.
Por meio de esforços assim prazerosos, a formação de nossos alunos e a pesquisa de nossos professores (com independência de sua orientação) têm conformado um padrão de qualidade elevado em todo país, contribuindo para a consolidação e a identidade de uma comunidade filosófica nacional.


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