quarta-feira, 8 de abril de 2015

Édipo Rei: Por uma moralidade cósmica

Nós dois temos
Os mesmos defeitos
Sabemos tudo
A nosso respeito
Somos suspeitos
De um crime perfeito
Mas crimes perfeitos
Não deixam suspeitos
  

Vejam bem, habitantes do século XXI, meus contemporâneos! Este é Édipo, decifrador de enigmas famosos; ele foi um senhor poderoso e por certo muitos poderiam invejá-lo em seus momentos de glória e prosperidade. Porém, poucos podem imaginar o que lhe reserva o destino, o imenso abismo no qual ele caiu.
Antes de apresentar nosso personagem e sua epopeia, faz-se necessário uma breve pausa no texto para estabelecer uma ponte entre Édipo e Giges, um dos personagens da última história intitulada Breaking Bad, Platão e a moralidade, apresentado neste mesmo espaço, onde tracei um esforço para futucar o problema da moralidade. Não vou adentrar nessas questões novamente, sugiro, entretanto, para os que não leram o último texto (Breaking Bad, Platão e a moralidade,), que façam a leitura, pois vamos, vez ou outra, dialogar com ele. Esse diálogo tem como rota conduzir a reflexão para primeira tentativa de solucionar o problema da fundamentação da moralidade. Assim como Mister White e Giges foram escolhidos para assentar o problema da moralidade, Édipo será aquele que irá nos guiar pela primeira resposta a seguinte questão: Em que está fundada a moralidade? Isto posto, sem muita delonga, vamos chamar nosso personagem.


Tateando os objetos, tropeçando, andando meio cambaleante; ainda se acostumando com a cegueira, vai Édipo ao encontro do trágico destino, do inevitável, mais terrível que a morte. Seus olhos ainda estão ensanguentados, do seu rosto jorram sangue e suor, o líquido vermelho traça um caminho por onde passa. A dor, o sangramento e a cegueira, tão recente quanto o fatídico e brutal acontecimento, acompanha nosso personagem. Lá fora, em frente ao seu castelo, onde reinou por 15 anos, seus súditos esperam ansiosos para saber o desfecho do trama trágico.

Édipo passa pelos corredores em direção à multidão, as imagens rodopiam em sua cabeça como se fosse um filme. Enfim soubera da história inteira, o quebra cabeça foi montado, tudo que aconteceu ele agora sabe nos mínimos detalhes. Assim, lacônico, absorto em pensamentos, é sugado por uma nuvem de lembrança que desloca nosso trágico herói para uma série de acontecimentos que explicam sua sina. 

Ai está Laio, o verdadeiro pai de Édipo, nasceu em Tebas, mas devido a divergências em sua adolescência, teve que fugir, vindo a ser criado por Pelops, rei de outra cidade. Apesar de ser estrangeiro e poucos conhecerem sua história, Pelops o acolheu como filho, com todas as regalias e cuidados.  
Entretanto, Laio não não retribuiu o acolhimento e cuidado e cometeu um grave crime, o que será a mola propulsora para a tragédia tebana. Vejamos como isso aconteceu.
O rei tinha um filho chamado Crisipo, muito querido e adorado, sobretudo por Laio que nutria um desejo carnal pela criança. Esse desejo levou-o a sequestrar o filho do rei e estuprá-lo, cometendo um horrendo delito contra uma criança. A criança consternada com a situação se suicidou. E Pelops, atormentado, "louco  de  raiva  e dor lança  uma terrível invocação aos deuses: se um  dia  Laio  tiver  um   filho,  que  este o mate e que a  cidade de Tebas seja destruída."
Laio retorna para Tebas, inclusive para fugir do horrível crime que cometera, depois de algum tempo ele se torna rei, casando-se com uma linda mulher: Jocasta. Em uma noite de embriaguez, ele e sua esposa, que sabiam da premonição, perderão a medida e pouco depois Jocasta estava grávida e uma criança nascia.
- E agora? - Pensam os pais - Existe uma criança, nosso filho. Mas ele será a fonte de toda a nossa destruição, melhor que não tivesse vindo ao mundo, mas já que veio nada poderemos fazer, afinal é o nosso filho! Mas é o filho da nossa destruição - ponderam novamente - ele é um mau agouro.
Em comum acordo,  depois de três dias, decidem matar o bebê, mas não podem fazer isso com as próprias mãos: por sentimentos e também pois cometeriam um crime de família perante os deuses, certamente o mais horrível. Diante das ponderações escolhem um criado, incumbido-o de deixar a criança no topo de uma montanha para que possa ser devorada por feras, aves, morrer de fome e ou insolação. O criado, durante o trajeto, carregando o bebê que por sua vez se encontra com os pés e os braços fortemente atados em um vara de pau, tem "um peso na consciência"e, enquanto ouvi o choro da criança, não pensa duas vezes, entrega o bebê para um camponês de outra cidade e se livra desse pecado. 

O  bebê recebe o nome de Édipo (que significa pés inchados), nesta altura você deve imaginar porque esse nome. Caso ainda não tenha caído a ficha pense em como deveria estar os pés da criança depois de uma longa viagem onde eles estavam fortemente amarrados. Mas os bons tempos para Édipo não terminam por aqui. O camponês trabalha para um rei, de um rica cidade chamada Corinto, o rei já está velho e não conseguiu, com sua esposa, nenhum filho, isso é um grave problema pois estamos em uma sociedade de dinastia. Sendo assim, quem irá assumir o trono? Édipo que chega pelos braços do camponês é tido como uma dádiva dos deuses, aceito pelo rei Pólibo e sua mulher Mérope, cresce com todo carinho, com uma rica educação para se tornar de fato o futuro rei de Corinto.  

A busca do seu lugar no cosmo
Édipo se sente um estranho fora do ninho e ele desconfia que ali não é seu lugar

Édipo cresceu, ainda adolescente, verificou-se um fato inusitado, que recorro a peça Édipo Rei de Sófocles para que possamos entender:

Verificou-se um dia um fato inesperado, motivo de surpresa enorme para mim (é Édipo que fala aqui), embora no momento não me preocupasse, dada as circunstancias e os participantes. Foi numa festa; um homem que bebeu demais embriagou-se e logo, sem qualquer motivo, pôs-se a insultar-me e me lançou o vitupério de ser filho adotivo... A custo na mabhã seguinte procurei meu pai e minha mãe (Pólibo e Mérope), mas embora sentissem muito com o insulto nada falaram sobre a questão da adoção, todavia a resposta não me deixou contente.

Édipo decide procurar o Oráculo de Delfos, dedicado ao deus Apolo (O oráculo é uma espécie de mensageiro que liga o presente, o passado e o futuro), só ele poderia dizer a verdade. O problema é: quase nunca o oráculo responde de forma direta, mormente suas respostas são cheias de enigmas, são palavras sibilinas, quando não são palavras fortes, gozadoras e que parecem não ter nada haver com a pergunta.
E foi justamente a última classe de resposta que o oráculo ofereceu a nosso personagem, foi a que melhor se encaixou com o caso de Édipo e ela é direta, prevendo não o passado, mas o futuro:
-  Você vai matar seu pai e se casar com a sua mãe!
Atordoado, sem entender, ainda atônito Édipo pensa que deve haver um equivoco e torna a perguntar: - Se eu não sou filho de Pólibo, de quem sou filho?
 Mas em vão! Ele ouve a única e mais terrível resposta ardilosa:
-  Você vai matar seu pai e se casar com a sua mãe!
Dai em diante Édipo leva uma vida errante, decide não voltar para casa. Não pisa mais os pés em Corinto! Vive a custo do destino e seus passos são dados ao acaso. Ele é um perambulante sem lar, "sem eira, nem beira" e com a possibilidade de um crime horrendo em suas costas, passando muito tempo perdido, no esteio do chão de terra, amparado pela dor, a sede e a fome. 
É claro que quanto mais "fugimos do capeta, mas ele nos aparece". Édipo quer a todo custo escapar de Corinto, mas sua fuga te leva ao encontro do inevitável. E agora vamos penetrar o núcleo duro da tragedia, o divisor de águas, aquele que faz vicejar a alegria, ofertando, depois, como fruto a dor.
Eis que Laio está se dirigindo ao Oráculo de Delfos, ele e mais 1 camponês e 4 soldados. Édipo está em seu caminho e Laio ordena que este se retire, entretanto, por razões de superstição (ele não pode sair do caminho, pois isso seria um retorno a Corinto e a casa de seu pai) Édipo se recusa a sair e Laio manda os soldados atacarem. Em uma dura contenda Édipo mata os soldados e inclusive Laio ( seu verdadeiro pai).
Édipo segue, depois de algum tempo, desde a terrível luta, ele encontra uma cidade desolada, homens retirantes minguando de fome, sede e terríveis doenças. O cenário é aterrador! "Que peste maligna foi capaz de levar uma cidade a esse estado?" - pensa Édipo - até que um jovem que se prepara para retirar diz que fora um terrível animal que vem devorando homens e atormentando a cidade: "Todos os homens que tentaram vencê-la não conseguiram, foram devorados pela terrível ESFINGE, "uma  mulher  que  tem   um   corpo  de leão  e  asas  de  abutre.  E  ela  literalmente  aterroriza  a  cidade,  propondo  um   enigma  para todos  os  seus  habitantes  jovens.  Como  eles  não  conseguem   decifrar,  ela  os  devora,  de forma  que  a  cidade  começa  a  ficar  bastante  deserta."
A pergunta da esfinge é essa: Qual   animal   anda  com   quatro  patas  pela  manhã,  com   duas  ao  meio-dia  e  com   três à  noite,  e  que,  contrariando  a  regra  geral ,  fica  mais   fraco  à  medida  que  tem   mais patas?
Aqui eu lanço um desafio para você: se coloque no lugar de Édipo, aceite esse jogo, se veja em frente a esfinge e lance a resposta para ela. Antes de prosseguir o texto, diga! Qual é a resposta do enigma? 
E ai, você foi devorado pela esfinge? Édipo também não, ele acertou a resposta e a esfinge se jogou do penhasco.
Se você disse que era o homem, acertou. Sim, é mesmo o homem, pois não é ele que quando nasce (manhã) anda de quatro, engatinhando; ao meio dia na idade da juventude, na idade adulta anda com as duas pernas; e na velhice (à noite) com três, por conta da bengala?
Édipo ganhou como recompensa, por seu heroísmo e façanha, por ter salvado a cidade, o posto de rei e direito a se casar com Jocasta, a esposa do rei Laio que foi morto, "não se sabe por quem".
Por 15 anos Édipo vive bem e feliz, com a linda Jocasta, ele tem 4 filhos, dois homens e duas mulheres, Tebas prospera, o povo diviniza o rei Édipo. Porém, na vida de vicissitudes de Édipo, a roda do destino muda, depois de anos de felicidade e glória, o destino embusteiro  apresenta o preço, o alto preço que nosso trágico herói deverá pagar. Vamos ver como isso acontece!
Estamos agora no cerne do assunto, a chave de engate  é uma peste que assola a cidade, que degrada o tecido social tebano. Crianças morem a míngua, velhos, homens, mulheres, todos os lugares passam por estragos, nada parece remediá-la. Para ainda piorar  tudo,  se  isso  for  possível ,  ocorrem   muitos  acidentes  incompreensíveis,  como mulheres  dando  à  luz  a crianças  natimortas  ou   monstruosas,  e  multiplicam -se  mortes súbitas  e  inexplicáveis  —  de  forma  que  Édipo  envia  de  novo  um   mensageiro  para consultar  o  oráculo  de  Delfos.  Este  último  responde,  de  forma  excepcionalmente  clara, que  o  flagelo  só  vai   deixar  de  devastar  a  cidade  quando  se  tiver  capturado  e  castigado aquele que matou Laio.

Se aproxima o fim da nossa história e como é de práxis na tragédia grega é o fim que guarda o ponto culminante. Vejamos o que ocorre depois que o oráculo revela quem é o homem que matou Laio.

Édipo convoca toda população a descobrir quem foi o assassino do rei anterior a ele: Laio. Porém, a principio não existe nenhuma pista, ao que se consta, Laio e os seus foram mortos por ladrões. Como encontrar esse, ou esses assassinos em meio a uma multidão? Nem se quer sabe-se se ele ainda está em Tebas. Nessas condições o rei não pestanejava, convocava um vidente, o melhor vidente para desvendar o ocorrido. E é ai que chega o maior vidente de toda a Grécia: Tirésias.
O vidente é chamado e inquirido. A principio ele reluta em responder, depois de insistência e ameaças ele revela, exatamente com essas palavras:
- O homem que procuras é tu, Édipo, você matou seu pai e esposou sua mãe, e com ela teve quatro filhos que são seus filhos e seus irmãos. Essa revelação não há de lhe proporcionar prazer algum, pois você que agora vê demais ficará cego, você que agora é rico pedirá esmolas e arrastará seus passos em terras de exílio. Seus filhos e seu povo irão te expulsar, será então motivo de escárnio, mau agouro.
Édipo reluta e se indispõe com o vidente, mas depois de outras provas que obtém ele descobre a realidade, descobre o trágico trama em que sua vida foi colocada. [1]
Jocasta se suicida, Édipo perfura os olhos e é afugentado de Tebas como um leproso ou algo bem pior! Sua história circula por toda Grécia e onde quer que chegue é reconhecido com a marca do mal e imediatamente é expulso. Ele, que um dia foi o Édipo Rei hoje é o Édipo "sem eira nem beira " e ainda cego.[2]

Pensar a proposta moral dos antigos a partir de Édipo


A peça Édipo Rei foi escrita por volta do sec. V a.C, é de autoria de Sófocles, um dos três maiores trágicos gregos. Aclamada como a maior peça já escrita, ainda hoje serve de pano de fundo para novelas, romances, teorias em psicologia, filosofia, sociologia. É algo que certamente faz parte de nosso arquétipo. É, enfim, um patrimônio imortal.[3]
Mas o que Édipo tem a nos dizer sobre a moralidade, tudo parece tão terrível nessa história, parece tão determinista? Onde a lugar para moral se só existe o terror aberrante?
Volto a ressaltar, o propósito dessa história é chegar ao ponto em que possa encontrar a primeira proposta de resposta as perguntas: Por que agir moralmente? O que funda a moral?
Quero chamar a atenção para pistas que nos ensinarão muito sobre a moralidade dos antigos, farei isso tomando como esteio os acontecimentos e os momentos mais marcantes da tragedia que denunciam traços do pensamento moral antigo.
O primeiro deles se inicia bem antes do nascimento de Édipo. Você deve se lembrar do crime que seu pai cometeu: Laio sequestrou e estuprou uma criança, filho do rei que cuidou dele. Por conta disso foi lançada uma praga sobre Laio e Tebas. Aqui está dois pontos fundamentais da moral analisada. Quais são?
A moral antiga é uma moral de compensação. Isto é, você deve pagar por suas atitudes descomedidas (hybris). E porque deve acontecer assim? Para que o universo se mantenha em equilíbrio. Pois o equilíbrio do universo depende da justiça (diké) e justiça para os antigos é você ocupar o seu lugar de destino e fazer o melhor nele. Se você se desloca do seu lugar de destino, ou tira algo do seu local de destino, sobretudo com violência, você deve ser punido por isso, essa punição ocorre como forma de restabelecer a ordem. Quem era responsável por fazer com que isso ocorresse, quem eram os juízes? Os deuses olimpo; alguns especificamente: Zeus, Apolo, Hera, ou aqueles homens conhecedores dos anseios divinos e sábios suficientes para lerem no cosmo a mensagem, a lei e assim serem instrumento dos deuses. No caso específico de Laio, sua punição deve corresponder ao seu erro. Qual foi seu erro? Destruir uma família, fazer desmoronar um império. Por que meio ele fez isso? Pelo sexo e pela criança. Então, Laio e sua descendência terão que habitar uma trama onde as devidas punições proporcione um equilíbrio. Enquanto o mal não for compensado uma parte do universo está desequilibrada.  Com isso temos os dois primeiros elementos da moral antiga: a ordem e a punição para aqueles que se desviam dessa ordem ou maculam ela. 
Decorre também que ser moral neste panorama, ou agir com moralidade é uma ação em consonância com a ordem universal, pois essa ordem foi conquistada, construída e ainda hoje é mantida pelos deuses olímpicos, sobretudo por Zeus, seu deus maior. Ao homem virtuoso compete ajudar os deuses na manutenção dessa ordem, pois no universo ordenado da mitologia grega também habitam as energias caóticas. [4] Interferir nessa ordem é o mal e o mal não pode reinar, pois põe em xeque a existência do universo. Os antigos viam o universo de forma orgânica, interligada, como um corpo, porém muito mais interdependente que o corpo humano. Logo, nesse universo, como em nosso corpo, se alguma parte fosse ferida o todo sinalizaria para que aquela parte viesse a ser restabelecida. O restabelecimento da parte era a punição. Embora me situe em um ponto específico e dê força a ele, quero evidenciar que os gregos não pensavam que o universo era só harmonia, na verdade os gregos sabem o valor da guerra, a guerra é um elemento que faz parte da cultura grega, os próprios deuses guerreavam, mesmo os deuses do olimpo vivem em guerra, discórdia. Mas a guerra faz parte dessa tensão em busca do equilíbrio. Um equilíbrio que não é estático, um equilíbrio dinâmico.  
O segundo ponto está em: por que fazemos o mal? Por que somos imorais? Por três motivos: Para os gregos e as tradições antigas como os romanos e de certa forma mesmo os cristãos medievais: Agimos imoralmente e maleficamente por deixar-se entregar pelas paixões e pelos desejos mais tenebrosos (caóticos), ou por desconhecimento e finalmente por destino. Sendo que nosso destino está atrelado a uma cadeia de fatos que nos antecede. Isso parece estranho, mas vou tentar mostrar que não é tanto assim retornando ao nosso personagem.
Édipo era um homem carregado de paixão em certa medida, ele reagia as ofensas, ele se apaixonou fervorosamente pela mãe, ele não ponderou tanto sobre a possibilidade do pai dele ser ou não Pólibo e a mãe Mérope, ele acreditou piamente na voz do oráculo. Claro que sabemos que um homem pensa de muitas maneiras com as ideias de seu tempo e até por isso eu considero que o pecado (o mal, a hybris) de Édipo não está na paixão. Por outro lado não posso falar a mesma coisa sobre sua ignorância (desconhecimento), ele poderia pesquisar melhor sobre sua história já que havia algumas pistas, neste caso ele pecou e parece que os deuses reconhecem isso, tanto é que ele é punido com a cegueira: "cego para não ver o mal que cometeram com ele e que ele cometeu por ignorância, por não enxergar". Neste segundo ponto reside uma máxima dos gregos que Sócrates encontra quando vai consultar o mesmo Oráculo de Delfos: "Conhece a ti mesmo". Com isso podemos dizer que Édipo pecou por desconhecer a história e também por desconhecer a sí mesmo. Aqui a lição da tragédia nos convida para a arte de conhecer e se autoconhecer. Sei que você vai argumentar: "Mas ele que furou os olhos", sim, verdade, mas ele fez isso por reconhecer onde falhou, é provável que você ainda argumente: "mas seria pior se ele tivesse sabido tudo que estava reservado para ele, sofreria por antecedência e talvez não teria aproveitado o melhor da vida, teria chegada a parte trágica dos seus dias sem ter desfrutado bem os dias bons". E isso é um dilema. É melhor viver sabendo sobre o trágico inevitável em nossa vida? Ou não saber nos possibilita viver melhor? Isso nos joga no terceiro motivo. O terceiro, certamente o mais ambíguo, entretanto o mais certo:o destino. Ninguém (habitantes do século XXI) poderá negar que é uma grande injustiça, a vida de Édipo foi uma tremenda injustiça desde pequeno e ele fez tudo para escapar por todos os lados do maldito destino, mas foi impossível. No final ele matou seu pai e casou-se com sua mãe.  E aqui eu quero finalizar meu texto sinalizando essa dimensão do destino, daquilo que nos escapa e pontuar o sentido desse mito ainda hoje.

Uma reflexão para os que furam os olhos
para os que não sendo Giges, preferem não enxergar

Os mitos eram narrados com um cunho cultural e educacional, buscavam sedimentar naqueles que viam a história, valores e comportamentos desejados para uma vida boa na democracia, na polis . O mito/tragédia unia o mágico, o divino e o profano para adentrar em dimensões sociais e psicológicas, para possibilitar uma catarse. Existem várias explicações mais profundas sobre a importância e a influencia das tragédias em nossa cultura, eu, como sinalizei antes, quero finalizar apontando a questão do destino e de como ela está ligada com a ideia de cosmo harmonizado.
Para os gregos o homem/mulher nasce, mas não nasce pronto, todavia também não nasce "zerado", ele traz consigo heranças diversas, como é o caso de Édipo, herdeiro de uma herança maligna. Mas ao homem compete dizer o que vai fazer com essas heranças (riqueza, beleza, doença, feiura, pobreza) e pela educação, com uso das virtudes, do seu potencial natural, encontrar seu lugar no cosmo, o lugar onde ele se sinta melhor e possa ser melhor também para outros.  Eis ai a moralidade: Conhecer seu lugar, se dirigir para ele e lá habitar. Moralidade e conhecimento/autoconhecimento é indissolúvel, pois o cosmo e os homens são regidos por leis, e quem se esforça para conhecer essas leis e segue essas leis vive bem. Viver bem e viver moralmente são quase que sinônimos, mas isso é uma conquista, que depende da capacidade de seguir sua natureza, enfrentar as adversidades, respeitar e adorar os deuses e de conhecer bem o universo com suas leis divinas, o universo animado, dotado de sentido.  
A sabedoria do mito ainda vive em nós, aqui quando ela fala sobre o destino não é tão estranho, alias está mais próximo do que imaginamos. Ela é um convite para habitar o presente, que é tudo que temos. Em vários momentos pensamos: "preciso encontrar meu cantinho", "eu queria ter simplesmente um lugar de mato verde...", "uma casinha", "meu porto seguro". Isso se mostra do ponto de vista do espaço, do tempo e também do que fazemos, por exemplo: existem pessoas em profissões onde se ganha muito dinheiro, com bastante destaque social, mas desejosos de trabalhar com outras coisas. Parece, em certo sentido, que é a busca pelo seu lugar. Se não for a busca, ao menos parece que é a crença de que existe um "lugar que é mais seu".
Do outro lado temos mais alguns aspectos da dimensão destino, famigerado destino. Onde fica o destino para nós contemporâneos, alem dessa crença do seu lugar, do seu cantinho, da sua praia?
O ponto que vamos adentrar agora é um convite para desvelar a face oculta do destino (mas não tão oculta). Se no outro ponto que tocamos acima, quando falamos do destino enquanto direções que tomamos porque pensamos que vamos ser felizes, existe margem para duvidar que seja destino e que ai nós é que escolhemos, neste próximo aspecto a questão parece ser mais pesada. Vejamos então!
Muitos certamente diriam: "eu jamais aceitaria e nem mesmo acredito em um destino desse como o de Édipo", mas lembre-se que a tragédia é um ponto especifico levado ao extremo.  E qual extremo que está sendo levado e que podemos tirar como lição para nossos dias a partir da tragedia Édipo Rei? Aquilo que não podemos mudar muitas vezes é razão suficiente para não sermos um pouco mais feliz. Vejamos então. E vejamos aqui se você não tem furado seus olhos. Se você não tem sido estrangeiro de si. Você se queixa pois nasceu loira, nasceu em um determinado lugar, com uma determinada doença, em uma determinada família com certa classe, certos hábitos. Isso é o destino! Você não pode mudar isso! Você não vai mudar se nasceu com traços asiáticos, africanos, embora já exista vários tratamentos, mas você não vai mudar isso, que nasceu assim. Você não vai mudar que nasceu em Sergipe, em Salvador, que nasceu em uma família com parcos recursos financeiros, que tem uma mãe assim e um pai assim. Essas são questões que independem do nosso querer, nós somos jogados no mundo! Tudo bem, você pode falar: "Mas eu posso ficar negro se quiser, deixar meu cabelo black, eu posso ficar branco, faço como alguns atores, clareio a minha pele, eu posso ir viver em New York". Mas ainda assim você nasceu no Brasil, seus pais são esses, sua cultura de origem foi uma e querendo ou não você carrega essa marca. Eu sei que você pode insistir, talvez tenha ou não recursos para fazer essas mudanças drásticas e se tem recursos você fará, mas se não tem terá maior necessidade de aprender a ser feliz nessas condições. Tornar-se senhor do seu caos interior. Por exemplo: fazendo acordos, buscando margens de manobra e percebendo ai, quem sabe, que onde viu feiura, tristeza, existe um que de beleza. Buscando perceber o lado bom daquilo que não pode ser mudado, habitando o presente. Mas não para ai! E se você não tem somente uma herança social, cultural e sim uma herança genética, se nasceu com uma doença degenerativa, um cancro, uma paralisia e tantas outras. Como ser feliz? Pode parecer uma teoria do comodismo, mas não é isso! Ao contrário: é uma teoria da ação, talvez uma ação por reconhecimento de importância, importância do lugar que você ocupa, importância dos elementos que torna sua existência o que tem sido.
Creio que o grande dilema e lição que a história de Édipo nos coloca é essa, a vida é curta, e neste enredo da vida existem momentos de dor e felicidade. Édipo deve ter sido muito feliz com seus pais adotivos e depois com Jocasta e seus filhos ainda pequenos. Existe em nós e em quem nos rodeia e onde vivemos o que nos desagrada, mas, certamente, ainda assim existe o agradável. Se prenda mais a isso! Resignifique sua experiência existencial, algo que se situa no amor fati de Nietzsche, lídimo leitor dos trágicos, que nos lega essa lição: Queixe-se menos, espere menos e ame mais!     

[1] Existem várias traduções da peça Édipo Rei de Sófocles, indico aqui uma tradução realizada diretamente do texto original em grego: Trilogia Tebana, traduzido por Mário da Gama Kury, editora Jorge Zahar. Aqui você encontra as três peças de Sófocles sobre Édipo e de sua descendência, sua morte e destruição da cidade de Tebas. Veja aqui no domínio público o livro para baixar, não tive acesso as informações sobre a tradução, mas creio que vale a pena conferir, quem souber as informações sobre a tradução dessa versão gratuita deixa aqui um comentário. ---- CLIQUE AQUI PAR BAIXAR 
Os outros dois maiores trágicos gregos também escreve sobre Édipo: Eurípedes e Ésquilo, todavia não com a mesma magnitude de Sófocles. Édipo Rei é escolhida de longe como a peça sui generis da tragedia grega. 

[2] Foucault faz uma análise primorosa sobre a condenação de Édipo e as formas jurídicas da Grécia em um ensaio intitulado: Verdade e as formas jurídicas.

[3] A leitura dos livros Introdução a Tragédia de Sófocles de Nietzsche e a Origem da tragédia do mesmo autor são fontes importante para entender a tragedia grega. 

[4] O filme Fúria de Titãs faz alusão ao combate entre a ordem e o caos, sendo que a ordem é representada por Zeus e os deuses olímpicos e o caos pelos Titãs como Cronos. Cronos é o arquétipo do caótico, do diabólico, ainda que esteja aprisionado no Tártaro (uma espécie de inferno), sua força ainda ressoa sobre a terra. Existem deuses e mesmo humanos que são morada da dimensão caótica. 








5 comentários:

Diego Guimarães Camargo disse...

Meu amigo Keu! Fico feliz em ler seus textos, pois na leitura de todos eles sempre tiro algo de significativo para minha vida. Concordo com você: O erro de Édipo não está na paixão, porque a paixão foi uma decorrência lógica da sua falta de moralidade. Puni-lo por isso seria ensejar em "bis in idem" (porque essa paixão é uma ação que decorre do ato de não se conhecer). As atitudes são a externação do que não se espera de si mesmo, porque se desconhece. Acredito, como você, que o conhecimento da moralidade universal se confunde com o próprio bem viver, porque este é consequência (olha ela aqui de novo!) do conhecimento daquela. Não o conhecimento como "saber", mas o conhecimento internalizado (o sentimento do que se conhece). Meus sinceros parabéns, meu velho! Excelente texto!

amanda lima disse...

A questão do destino poderia ser bem mais aprofundada. Não escolhemos como pode ríamos ter vindo ao mundo: cor de pele, classe social, família e etc. No entanto também não escolhemos nascer e não há nada de determinismo nisso, a meu ver, é puramente um acaso e não destino. Toda a essência da nossa existência é dada determinada por nós mesmos. Nós damos sentido a ela.

amanda lima disse...

A questão do destino poderia ser bem mais aprofundada. Não escolhemos como pode ríamos ter vindo ao mundo: cor de pele, classe social, família e etc. No entanto também não escolhemos nascer e não há nada de determinismo nisso, a meu ver, é puramente um acaso e não destino. Toda a essência da nossa existência é dada determinada por nós mesmos. Nós damos sentido a ela.

Cleidson de Oliveira disse...

Muito bem, Amanda! Concordo com você com relação a necessidade de aprofundar essa questão do destino. Na verdade o texto é também um convite para que isso ocorra, pois ao continuar a busca pela fundamentação moral em outros pensamentos como o dos modernos, os cristãos vamos ver que a questão da liberdade e do destino é um ponto essencial. Espero poder chegar neste ponto. Fico feliz que você tenha sinalizado isso e também tenha se manifestado assim! Você conseguiu se apossar de um conceito que é caro e pensar esse conceito. Não vou aprofundar, aqui, a discussão sobre o que o texto tenta definir como destino e qual o ponto que tentei esboçar, pois vamos fazer isso em um outro momento e também quanto a isso penso ter me explicado por meio de outro espaço num proveitoso dialogo com você. Mas, acreditando que outros vão ler os comentários e esperando que outros também pensem como você pensou, eu quero dizer apenas que ao falar de destino tentei traçar uma ponte entre a concepção de destino dos gregos e a nossa, como ele funciona em nossos dias e como concebemos ele muitas vezes de forma inconsciente.
Eu não penso que o destino seja um determinismo, embora tenha correntes que falem isso, mas meu proposito foi pontuar o destino como condições várias que não escolhemos e que nos influenciam muito. Em muitos casos essas condições são muito mais fortes. Por exemplo: imagine as mulheres que nascem em uma casta inferior, ou que são párias na Índia. Isso é só um exemplo de herança cultural e de condições sociais e históricas que herdamos, mas existem várias outras. Todavia quero dizer que embora isso influa em nossas ações na nossa forma de pensar e pode para muitas pessoas, mesmo limitar, não queira dizer que nos determina, que não temos liberdade para usar dessas condições para construir uma vida melhor para nós e a nossa geração e mesmo as gerações futuras. A questão que aponto é a recusa dessa realidade e a busca de fuga frenética que percebemos nos nossos dias. Grande abraço!

Cleidson de Oliveira disse...

Caro Diego, agradeço pelo comentário, aprecio muito quando vocês acrescenta as noções jurídicas na discussão. Eu até tenho pensado, diante de seus comentários, sobre a possibilidade de escrever, no futuro, uma concepção de moralidade pelo viés do direito. Pelo viés de uma corrente do direito. Você toparia escrever sobre isso? Não agora é claro, penso que ainda muitas "águas vão rolar", mas continuando, depois que passarmos pelos modernos e chegar em uma concepção de de moralidade contemporânea, seria um bom tempo para falar dessa moralidade. Penso com carinho. Competência para isso eu sei que você tem e que sobre, melhor dizendo, sua competência na área transborda. Abração.

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